quinta-feira, 9 de outubro de 2008

Santo Amaro da Purificação e a Família

No Brasil a família teve seu início na cidade de Santo Amaro na Bahia,também conhecida como Santo Amaro da Purificação e que ganhou status de cidade em 1887; apesar de ser fundada em 1557 e elevada a Vila de Santo Amaro em1727, na gestão de Vasco Fernandes César de Menezes, Conde de Sabugosa, que tomou posse em novembro de 1720, posteriormente a Vila foi nomeada Município e foi parte também do Engenho Real de Sergipe d' El Rey construído por Men de Sá em 1563, tinha muitos engenhos de açúcar,chegando a ser o principal produtor. De acordo com a escritora e pesquisadora Zilda Paim,Santo Amaro chegou a ter 129 engenhos de açúcar.
A cidade é herdeira de muitas manifestações culturais como a Capoeira,Samba de Roda,
Maculelê, Nêgo Fugido e o tradicional Bembé do Mercado, esta última é de origem Yoruba e, de acordo com o Dr. Akin Euba (University of Pittsburgh), Bembé é um festival de tambores muito comun na região Ijesa (Ijexá no Brasil). Além da riqueza cultural, Santo Amaro também foi palco da presença de inúmeros imalès (malês),que tiveram participação na Revolta de 1935.
Os nossos antepassados que viveram na Bahia eram Maria Pinheiro (filha de Fadugba) e Feliciano Pinheiro, que veio de Sergipe para contrair o casamento. De acordo com escritos do Museu do Homen em Sergipe,eram comuns pessoas que viviam em Sergipe viajarem para Bahia para contrair casamento com pessoas de mesma origem étnica e algumas vezes com parentes (endogamia).
Feliciano e Maria Pinheiro tiveram vários filhos; José, Vicente, Pedro,Rozendo, Leonídia, Ortelina e Sofia são alguns deles. Alguns viveram no bairro de Sinimbú outros migraram para outras regiões.
Sobre Feliciano Pinheiro além da sua vinda de Sergipe para Bahia,temos informação de que sua mãe era de origem Ekiti, também de uma região chamada Itapaji. Na Bahia existem alguns orikis(cognome) Omo Okiti (da região Ekiti não denominada), Omo Okiti Efon (de Efon Alaaye), Omo Ale Oko (filho do Fazendeiro),Omo Alale Oko/Omo l' ale Oko (filho de um proprietário de terra,uma pessoa importante) que de acordo com o Drº Raphael Afolabi Akinfaderin (Yoruba Institute of Cultura), são do Estado de Ondo que foi dividido dando origem ao atual Estado de Ekiti.
Ainda com relação a presença Yoruba Ekiti no estado da Bahia,podemos citar a expressão "Orayeye",que há alguns anos atrás ficou conhecida em todo Brasil pela voz da famosa cantora,baiana de Santo Amaro,Maria Bethania.
Na realidade esta expressão vem de "Oro Iyeye" também escrita "Oro Yeye",é uma assinatura Ekiti,pois trata-se de um festival da cidade de Ayede-Ekiti e, limitado as cidades de Ayede-Ekiti,Iye-Ekiti e Itapaji-Ekiti cidades conectadas ao antigo Reino de Ayede.Oro (Festival),Iyeye (Avó),no dialeto Ekiti destas regiões.Este festival está ligado a linhagem feminina de Imela ,linhagem Real de Iye-Ekiti.
Sobre Sergipe sabemos da grande importância cultural da cidade de Laranjeiras,cidade esta com forte presença afrodescendente e que a mesma tinha no passado o Engenho Pinheiro hoje conhecido como povoado Pinheiro, um dos grandes fazendeiros de Laranjeiras foi Gonçalo Pinheiro da Costa. Dentre as tradições de Laranjeiras temos a história oral dos "Filhos de Obá" casa de religião tradicional Yoruba fundada desde os tempos da escravidão e cuja tradição oral é dita como fundada por Yorubas oriundos da cidade de Obá (Obá-Ile) do antigo Reino de Obá dos Yorubas Igbominas, porém a antiga cidade de Obá existiu até 0 século X ,sendo destruída devida as guerras da época, contudo devido a dispersão das pessoas desta cidade para outras áreas da Nigéria, surgiram várias cidades com o nome de Obá, todas fundadas por remanescente do antigo Reino de Obá como Obá-Ile (em Osun State), Obá-Oke (em Osun State), Obá-Ile (em Akure/ Ondo State), Obá-Akoko (em Owo/Ondo State) e Obá Igbomina (em Kwara State). Muitas tradições e histórias envolve o antigo Reino de Obá, porém diante da destruição do Reino em tão longiquo século em relação a vinda de Yorubas para o Brasil e neste caso para a cidade de Laranjeiras em Sergipe, conclui-se que a tradição oral dos "Filhos de Obá" está ligada a diaspora dos Igbominas. É interessante ressaltar que os Igbominas são oriundos de três grupos distintos que migraram também em tempos diferentes para a formação de seu antigo Reino.Eles vieram das cidades de Ile-Ife , Oyo , e Ketu na atual República do Benin.
Apesar da explanação a cerca dos Igbominas e sua relação com Laranjeiras, não se deve generalizar os sergipanos afrodescendentes que lá residem como sendo todos descendentes de Igbominas ou Yoruba,pois haviam muitas migrações de africanos que viviam em Alagoas, Bahia e Pernambuco para Sergipe e gente de várias partes do continente africano então é salutar que se leve em consideração estas migrações que mencionamos.

Particularidade linguistica:
A palavra Ale é característica distintiva da região de Ondo e quando usada no cognome, não tem o significado de ilegitimidade ou concubinato como em outros estados Yorubas e com frequência se refere a tios, esposo etc.Também são conhecidas as algumas expressões na Bahia e Rio de Janeiro que conservam palavras de origem Ekiti que são:
1."Adeja komo ibi okun timu omi wa,ofidan komo ipile se osa"
2."Mas como diz o baiano,não é buruburu de ofidan diz ele,burro,burra."
3."Eu não sou ofidan" (Na frase, ofidan tem sentido de contador de história, de mentiroso). Neste contexto parece-nos que a palavra certa é ofidon que vem da expressão Edo(Bini) " o fidon " que significa transgressor ou violador, de acordo com a explicação do Professor Alex G. Igbineweka a nós endereçada.
4."Gburo Gburo de o fi odan " (Ouvir Ouvir incentiva o falador- pessoa de narrativa inconsistente ).
A palavra ofidan é muito antiga e particular de uma região Ekiti e, não é conhecida por muitos de Efon Alaaye.De acordo com o Príncipe (Babalawo) Adigun Olosun ,intelectual especialista em cultura e tradição Yoruba; Ofidan significa Pescador no dialeto Yoruba-Ekiti.
Aqui no Brasil existe uma palavra homônima Homófona (Ofidan/Ofidã), que não pertence ao universo Yoruba.
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Migrantes Baianos na "Pequena África"
Nomes de famílias citadas por João do Rio em seu livro " As Religiões do Rio "
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Parte destas famílias citadas por João do Rio,faziam parte da denominada Pequena África,algumas eram migrantes de Santo Amaro da Purificação.O contexto apresentado no referido livro é estereotipado,talvez pelo momento histórico da época,na qual o espiritismo,a magia e até mesmo o islamismo praticado pelos africanos e afrodescentes eram proibidos.
No início do século XX,os praticantes destes cultos e práticas,quando presos eram autuados no artigo 157 da Lei Penal.Como João do Rio escreveu " As Religiões do Rio " neste período histórico e, com uma edição em 1904,ele estereotipou o contexto.Não fazendo apologia a religião tradicional africana,ao islamismo ou a qualquer outras práticas associadas a alguma religião;não podemos deixar de fazer menção a alguns nomes de famílias citados no referido livro,famílias estas que ainda existem na Nigéria,Benin,Togo e Ghana e,conservam suas tradições e religião,sejam tradicional,islâmica ou outra e vivem respeitosamente dentro da realidade de suas regiões.Usamos em alguns casos a transliteração para a correta grafia dos nomes.
Famílias:
AdeOie - Adeoye (Família Yoruba Ekiti -Nigéria)
Ajagun - Ajagun (Família Yoruba Igbomina -Nigéria)
Alaba - Alaba (Família Yoruba)
Alikali - Alikali (Família Tapa - Nigéria)
Eruosain - Eruo Osayi (Famíla Edo (Bini) -Nigéria)
Gia - Jyia (Família Tapa -Nigéria)
Ginjá - Ginjá (Família Tapa -Nigéria)
Obalei-ie - Obaleye (Família Yoruba Ekiti -Nigéria)
Obiojamin - Obinja (Família Tapa )
OchuBumin-Osunbunmi (Família Yoruba )
OchuTaiode-Osunkayode (Família Yoruba)
Ochutoque -Osuntoki (Família Yoruba)
Oiabumin - Oyabunmi (Família Yoruba - Nigéria)
Ojo - Ojo (Família Yoruba /Imesi-Ile/Nigéria)
Quindunde- Akintunde (Família Yoruba)
Olootete - Oluo Otete (Família Real de Niger delta-Nigéria)
Oluou - Oluwu (Família Yoruba /Ogun State/Nigéria)
Wago - Agoh (Família Yoruba -República do Benin)

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